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A comunicação interna como ferramenta de inclusão para pessoas com deficiência

Neste mês, o jornal O Globo publicou um artigo intitulado “Inclusão de PCDs avança, mas ainda desafia empresas”, em que mostra as dificuldades delas contratarem este público, além de alguns bons exemplos de companhias que já fazem da inclusão, uma prática diária.

E, neste segundo texto meu para nosso blog, queria trazer um pouco da minha experiência de mais de sete anos trabalhando com pessoas com deficiência para falar como a comunicação interna é essencial para que as empresas, de fato, tornem-se inclusivas.

Mas antes, vamos falar um pouquinho de como está o mercado de trabalho para inclusão das pessoas com deficiência?!

Não sei se você sabe, mas existe aqui no país uma lei, de 1991, que obriga todas as empresas com mais de 100 funcionários a destinar uma porcentagem de vagas para pessoas com deficiência.

Apesar de ser obrigatório há mais de 30 anos, isto caminha a passos lentos. Dados de 2020 indicam que apenas 1% deste público está no mercado de trabalho.

Mas, mais do que abrir vagas, é necessário dar condições para estes profissionais trabalharem. O que ocorre, muitas vezes, é que a empresa abre vaga, contrata, mas as condições de trabalho são precárias, fazendo com que o profissional se sinta menosprezado.

Outra coisa que acontece muito é a empresa achar que está fazendo inclusão quando, na realidade, o que está fazendo não está tendo nenhum impacto para as pessoas com deficiência.

Vou dar um exemplo. Certa vez, um colega cego que trabalhava comigo e também era consultor de acessibilidade, falou que uma empresa de transporte de app mandou mensagem para ele convidando-o para testar uma nova ferramenta do aplicativo.

Ele, porém, disse que a ferramenta não era necessária porque o celular já dava essa opção. Eles, no entanto, não aceitaram a sugestão dele e prosseguiu com os testes. O que eu quero mostrar é que fazer um monte de coisa não é incluir. O importante é fazer as coisas que, de fato, façam sentido para este público. E a melhor maneira de fazer isto é conhecendo cada um.

E é aqui que entra o papel da comunicação interna nas companhias.

A comunicação interna e a inclusão da pessoa com deficiência

A comunicação interna tem como um dos objetivos reforçar os valores e a cultura da empresa para as pessoas colaboradoras. E, para que isso seja feito sem ruídos, é necessário que todo mundo entenda muito bem o que está sendo passado.

E, para nos comunicarmos de maneira eficiente com este público, é fundamental saber duas coisas: a primeira, é que nem todas as deficiências são iguais. Por que é necessário saber isto? Porque cada uma destas pessoas tem uma necessidade diferente.

A deficiência visual, por exemplo, existem pessoas que são cegas totais e outras que têm baixa visão. Dependendo do que for comunicar, você precisará de canais de comunicação diferentes para atingir cada público.

A segunda coisa é saber como falar, usar as terminologias corretas. Isso demonstra que a sua empresa se importa com eles e respeita todas as pessoas colaboradoras.

Dito isto, vamos ver como podemos fazer da comunicação interna um meio de inclusão dentro das empresas.

A comunicação interna para pessoas com deficiência visual

Se a sua empresa tem, no público interno, profissionais com deficiência visual, identifique se entre eles são pessoas com baixa visão ou cegos totais.

Se o profissional tiver baixa visão, usar letras grandes pode ajudá-los. A sua empresa usa mural? Imprima sempre os comunicados com letras ampliadas para que eles consigam ler. Já se você envia e-mail com imagem, faça a mesma coisa, deixe os textos da imagem com letras grandes para que este público seja incluído na comunicação.

Para os designers gráficos, é importante que as imagens tenham contraste com o texto, para que a legibilidade seja possível. Um fundo branco com letras brancas, por exemplo, irá prejudicar a leitura ou, até mesmo, a pessoa pode não conseguir ler.

Pense também no público que é cego total, caso haja na sua empresa. Se vai entregar comunicados impressos, imprima também em Braille. (Não sabe onde encontrar impressão em Braille? Dá um Google aí que, muito provavelmente, você vai encontrar uma instituição na sua cidade que faz serviços de materiais em Braille).

Mas, se a comunicação acontece por e-mail, certifique-se de que o software usado pela pessoa cega consegue ler o conteúdo da imagem, caso contrário, mande o conteúdo em formato de texto.

Sua empresa costuma mandar comunicado via WhatsApp? Lembre-se sempre de descrever a imagem.

A comunicação oficial é por meio de rede social corporativa? É fundamental também descrever todas as imagens que você publicar (aquela #pracegover) ou incluir texto alternativo, se houver esta opção na rede social. (deixar algum manual para descrever a imagem)

A comunicação interna para pessoas com deficiência auditiva

A primeira coisa que você precisa saber é que nem toda pessoa com deficiência auditiva é alfabetizada na Língua Portuguesa. Existe uma língua oficial da comunidade surda no Brasil, a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS).

Com isso, muitas vezes, mesmo colocando aquela legenda no vídeo interno ou aquele texto no mural ou no e-mail, você pode não estar tendo uma comunicação eficiente com este público. O ideal é saber com os profissionais com deficiência auditiva, qual a melhor maneira de se comunicar com eles.

A sua empresa costuma fazer eventos corporativos? Como as pessoas surdas interagem? A inclusão passa por oferecer ferramentas para que eles participem de tudo que acontece na companhia. Neste caso, o intérprete de Libras é indispensável.

Para uma melhor comunicação entre as pessoas colaboradoras, ouvintes e surdos, existem diversos aplicativos como o ProDeaf Móvel, o Hand Talk e o Uni LIBRAS. Estes apps podem diminuir a barreira entre eles. Além disso, a sua empresa pode oferecer curso de Libras para as pessoas ouvintes.

A comunicação interna para pessoas com deficiência física

A comunicação interna também precisa ter um olhar atento para as pessoas com deficiência física dentro da empresa. Observe se os profissionais cadeirantes conseguem acessar o mural da empresa, caso contrário, fixe um mural específico para eles.

Nos eventos internos, se preocupe com a acessibilidade. É muito importante que eles possam participar dos eventos sem nenhum tipo de constrangimento.

Não pare por aqui!

No mais, faça da inclusão uma rotina diária dentro da empresa. Realize palestras e eventos de integração para que as pessoas sem deficiência aprendam a lidar com as pessoas com deficiência, diminuindo assim a barreira entre elas.

Existe um lema adotado pelas pessoas com deficiência que é “nada sobre nós, sem nós”, ou seja, se vai fazer alguma coisa para eles, você deve incluí-los na discussão.

Além destes exemplos acima, existem muitos profissionais com outras deficiências no mercado de trabalho. Então, não deixe de ouvi-los e respeitar a individualidade de cada um. Pergunte sempre o que eles preferem e faça da comunicação interna um meio de acessibilidade dentro da empresa.

Inclusão gera mudança de cultura

E, para finalizar este artigo, queria trazer um exemplo de como a comunicação interna pode auxiliar na mudança de cultura de uma empresa.

Quando eu trabalhava na Secretaria da Pessoa com Deficiência no Rio, a prefeitura promovia encontros com servidores, chamados de líderes, das outras secretarias municipais para que os atendimentos pudessem ser integrados, ou seja, entender como o serviço de uma secretaria poderia contribuir para o serviço de outra secretaria.

Desta vez, a secretaria que eu trabalhava seria a anfitriã. Então, a gente pensou em algo que pudesse mudar a percepção deles em relação às pessoas com deficiência.

Queríamos que eles sentissem, mesmo que por alguns minutos, o que as pessoas com deficiência sentem por toda a vida, muitas vezes.

Para que estes líderes tivessem a noção de como um surdo se sente quando procura um atendimento e não tem nenhum intérprete para ajudá-lo, fizemos o contrário. Colocamos pessoas falando em Libras, na recepção.

Assim, eles chegavam para o evento e não sabiam se comunicar. Alguns segundos depois, explicávamos o que estava acontecendo. Mas era um choque de realidade. Queríamos, com isso, sensibilizá-los da importância de se ter intérpretes nos locais de atendimento público.

Neste mesmo evento, também pedimos para que eles vendassem os olhos, simulassem ter uma deficiência visual e fossem conduzidos por uma outra pessoa. Além de simular outras deficiências.

No final do evento, todos relataram que foram impactados pelas dinâmicas propostas e que, sem dúvida, a percepção deles mudou.

E este também é o papel da comunicação interna. Além dos textos, vídeos e eventos, precisamos mudar as perspectivas das pessoas para uma nova realidade, que é a da inclusão!

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